Todas as grandes cheias do Rio Tubarão, com os números
Reunimos o que está documentado sobre cada cheia: quanto o rio subiu, quanto choveu, quem foi atingido e o que mudou depois. Onde não existe medição confiável, dizemos isso.
Foto: enchente de 1974, Tubarão. Autor desconhecido, domínio público (Wikimedia Commons).
Quanto o rio subiu
Atenção ao comparar: os níveis foram medidos em pontos e épocas diferentes. Em 2022 o valor de 7,00 m é do ponto no Batalhão do Exército; no ponto central (Plantar) o pico divulgado foi de cerca de 5,5 m. O valor de 1974 vem de registros da época, antes da retificação do rio. Alerta e emergência são as cotas do Plano de Contingência de Tubarão.
Linha do tempo
As cheias antigas só existem em relatos. Em 1838 houve uma grande inundação em quase todo o litoral catarinense. Em 1887 outra cheia destruiu casas e lavouras em Tubarão e foi considerada mais grave que a anterior. Em 1928 a água voltou a causar prejuízos no centro e na zona rural.
Não há registro de nível do rio nem de chuva em milímetros para esses eventos.
A chuva começou no dia 22 e foi mais forte nos costões da Serra Geral. No dia 24 o rio parecia estável, mas à noite a água voltou com muito mais força, enquanto Lauro Müller tentava avisar que o volume na serra era muito maior. Cerca de 90% da cidade ficou embaixo d'água. O sol só voltou no dia 26. Ficou uma camada de lama de 30 cm a 1,20 m, e a enchente atingiu 13 municípios do Sul do estado.
- Lestada: ventos fortes de leste empurraram umidade do mar contra a Serra do Rio do Rastro, onde a chuva ficou presa.
- Saída represada: o vento e a maré seguraram a água na foz, e o rio quase não tem declive depois da cidade.
- Rio cheio de curvas: o leito antigo escoava devagar.
- Solo encharcado e margens desmatadas: chovia desde o começo de março.
Chuva em mm: não encontramos um total medido e confiável para a bacia nesse evento. A rede de pluviômetros era pequena e parte dos registros se perdeu.


O DNOS retificou o leito do Rio Tubarão, tirando as curvas entre a cidade e Laguna. O leito antigo virou o "Rio Seco". Um estudo do próprio DNOS, de 1978, também propôs três barragens de contenção (Pedras Grandes, acima de Armazém e Braço do Norte). Elas nunca foram construídas.
O canal perdeu de 30% a 40% da capacidade. Por isso a redragagem é cobrada há anos pelo Comitê da Bacia e pelas lideranças da região.
Tubarão decretou situação de emergência por alagamento em maio de 1994, janeiro e dezembro de 1995, maio de 2004 e janeiro de 2011. São eventos de chuva forte sobre a cidade, com a drenagem sem dar conta, e não necessariamente de transbordamento do rio.
Inundação e alagamentos levaram à decretação de situação de emergência. Foi esse evento que serviu de base para o mapeamento de áreas de risco feito pela CPRM em 2013, usado até hoje no Plano de Contingência: Bom Pastor, Madre, Passagem, São Clemente, Dehon, Oficinas, Santo Antônio de Pádua e outros.
Não encontramos nível do rio nem chuva em mm publicados para esse evento.
Um ciclone extratropical trouxe chuva intensa a partir do dia 2. O rio transbordou no centro na noite do dia 4. No ponto central de medição o pico divulgado foi de 5,54 m às 9h do dia 5, já baixando cerca de 5 cm por hora. Comércio e aulas foram suspensos, 17 mil unidades ficaram sem luz e a ponte dos Morrotes foi interditada. Cerca de 30 mil pessoas foram afetadas, segundo a Defesa Civil municipal.
Bairros mais atingidos: Humaitá, Dehon, Guarda, São João, Bom Pastor, Madre e Fábio Silva. Havia ainda previsão de maré alta segurando a saída da água para o mar.
No fim de novembro e início de dezembro de 2022 choveu mais 495 mm, com novos alagamentos. Em oito dos doze meses daquele ano choveu acima da média.
O rio transbordou em vários pontos e o município decretou emergência no dia 7. Às 17h12 o nível era de 5,68 m. Segundo o relatório da Defesa Civil, 250 pessoas foram para abrigos públicos, mais de 3 mil se abrigaram com parentes e amigos, e 305 famílias (860 pessoas) registraram danos.
Choveu mais que em maio de 2022, mas espalhado por mais dias. Por isso o estrago foi menor. Novembro ainda somou cerca de 200 mm.
A maior parte da água veio dos rios que descem de Lauro Müller e Orleans. As bacias do Braço do Norte e do Capivari receberam menos chuva, o que segurou a cheia. As comportas foram fechadas por prevenção e a bomba da margem esquerda trabalhou a madrugada inteira.
Resumo técnico
| Evento | Nível do rio | Chuva | Impacto |
|---|---|---|---|
| 1838 | sem registro | sem registro | inundação em quase todo o litoral de SC |
| 1887 | sem registro | sem registro | casas e lavouras destruídas |
| 1928 | sem registro | sem registro | prejuízos no centro e na zona rural |
| Mar. 1974 | ~10,2 m | sem total confiável | 199 mortos, 60 mil desalojados, 90% da cidade |
| Mai. 2010 | não publicado | não publicado | situação de emergência |
| Mai. 2022 | 7,00 m (Batalhão) · 5,54 m (centro) | 386 mm no mês | ~700 em abrigos, 30 mil afetados |
| Nov./dez. 2022 | não publicado | 495 mm | alagamentos |
| Out. 2023 | 5,85 m | 137,8 mm/24 h · 396 mm no mês | 250 em abrigos, mais de 3 mil desalojados |
| Set. 2026 | 4,88 m | até 107 mm em um dia | sem alagamento pelo rio |
Gatilhos do Plano de Contingência: 50 mm em 1 hora causa alagamentos; 100 mm em um dia traz risco de deslizamento; mais de 300 mm acumulados na bacia em dias seguidos indica grande probabilidade de inundação.
O que a história ensina
1. A cheia vem da serra. Em 1974 e em 2026 o aviso veio de Lauro Müller e Orleans, horas antes.
2. Chuva concentrada é pior que chuva espalhada. Em 2022 choveu menos que em outubro de 2023, mas em poucas horas, e o rio subiu mais.
3. Maré e vento de leste seguram a água. Esteve presente em 1974 e em 2022.
4. O canal já não é o de 1978. Com menos profundidade, escoa menos.
Simular a cheia no meu bairro
Levantamento feito pelo Alerta Sul SC a partir de fontes públicas. Os números são os divulgados por cada fonte e podem divergir entre si. Se você tem documentos, medições ou fotos de alguma cheia, envie pelo Mural do app para completarmos este histórico.
Fontes
- Nunes Júnior, N. M. O desastre de 1974 em Tubarão-SC: análise do evento. Corpo de Bombeiros Militar de SC, 2016 (cheias de 1838, 1887, 1928 e 1974).
- Plano de Contingência de Proteção e Defesa Civil de Tubarão (cotas, gatilhos, decretos, áreas de risco, evento de 2010).
- SCTodoDia: estudo do DNOS de 1978, capacidade do canal e barragens.
- Sulinfoco e Wikipédia: enchente de 1974.
- NSC Total, MetSul e Notisul: cheia de maio de 2022.
- Prefeitura de Tubarão: chuva de 2022 mês a mês, relatório de outubro de 2023 e boletim de 22/09/2026.
- UNITV e Agora Laguna: cheia de outubro de 2023.
- Folha Regional: pico de 4,88 m em 22/09/2026.
- Comitê da Bacia do Rio Tubarão e Complexo Lagunar: redragagem.